Crítica nostálgica da clássica série “Anos Incríveis” (1988-1993)

0

Anos Incríveis (The Wonder Years – 1988 a 1993)

Kevin Arnold (Fred Savage), um adolescente prestes a se tornar um homem adulto, acompanhado de seus pais (Dan Lauria e Alley Mills), seus irmãos (Olivia d’Abo e Jason Hervey), seu melhor amigo Paul (Josh Saviano) e, às vezes, de sua namorada Winnie (Danica McKellar), experimenta todos os tipos de traumas e emoções que acontecem na vida de todos nós.

Escrever sobre esta série é muito difícil do ponto de vista da imparcialidade que o crítico precisa adotar em qualquer análise, logo, não vou mentir, sou apaixonado por “Anos Incríveis” desde a pré-adolescência, quando acompanhava os episódios transmitidos na TV Cultura. Este texto será um resgate nostálgico, após revisão recente das seis temporadas em DVD. Eu tive a oportunidade de adquirir durante as férias dos meus afilhados, logo, vivi a felicidade de apresentar a eles este material. A mais nova ficou encantada com os personagens, chegamos a fazer maratonas de mais de seis horas e, em vários momentos, como no tocante desfecho do episódio “O Professor de Matemática”, ela se emocionou demais, algo que não tem preço. Em um país que hoje está naufragado em valores horrorosos, corrupção em todos os setores e baixíssimo nível cultural, considero fundamental que passemos adiante para as crianças a sensibilidade de uma época mais gentil. É nossa única esperança para garantirmos um futuro minimamente suportável.

landscape 1457621717 ustv the wonder years cast - Crítica nostálgica da clássica série "Anos Incríveis" (1988-1993)

“Éramos uma família, para o melhor ou para o pior, um por todos, todos por um.” 

Não dá para escutar a voz de Joe Cocker na abertura, cantando o clássico dos Beatles: With a Little Help from My Friends, sem se arrepiar dos pés à cabeça. A série criada pelo casal Carol Black e Neal Marlens transborda valores importantes, ensina de forma divertida que ética, amizade, respeito e honra são elementos preciosos na formação de um indivíduo. Ambientada no subúrbio de uma cidadezinha norte-americana, durante os fervilhantes anos 60 e 70, “Anos Incríveis”, após apenas os seis episódios iniciais, ganhou o prestigiado prêmio Emmy, com a indicação história do jovem protagonista, aos 13 anos de idade, como Melhor Ator. Uma das apostas técnicas mais corajosas e arriscadas foi recusar a claque cômica (riso pré-gravado nas cenas), tradicional recurso à época, algo que agregou ao tom maduro do conceito, sendo coerente à proposta de não subestimar a inteligência do público.

Ao longo dos anos, acompanhamos o pequeno Kevin atravessando todas as fases problemáticas e adoráveis da infância e adolescência, o primeiro amor, a primeira morte na família, a primeira traição, as pressões escolares, o auge da insegurança, as espinhas, a paixonite pela professora, os conflitos com os pais, as desavenças com os irmãos, até o período das decisões mais difíceis, o primeiro emprego (e a necessidade de se fazer profissionalmente o que se ama) e a aprendizagem dura do ato de desapegar, doses terapêuticas de vinte minutos de pura ternura que, como pode perceber, nunca mais são esquecidas.

Um dos episódios que mais amava era aquele em que as crianças sofriam com a destruição do simples parque em que brincavam para a construção de um prédio. A árvore em que riscaram suas iniciais, o local em que Kevin confortou Winnie em seu luto pelo falecimento do irmão mais velho no Vietnã, acarinhou timidamente seu cabelo e viveu a emoção do primeiro beijo de amor, abatido pelas máquinas do progresso. A valorização de patrimônios que ninguém mais enxergava, graças à pureza de almas intocadas pela estupidez humana, seres ainda movidos por afeto sincero. Em “Herói”, episódio da quinta temporada, o garoto passa a idolatrar um rapaz do time de basquete da escola, deixando seu próprio pai em segundo plano. Após uma humilhante lição, ele vai entender que, nas horas difíceis, o apoio paterno simboliza o real heroísmo.

“O fato é que depois de todos estes anos, não saberia mais dizer o resultado daquele jogo, a única coisa de que me lembro é que era jovem e que fiquei sentado até tarde da noite naquele bar, tomando café com o único e verdadeiro herói que conheci em toda a minha vida, meu pai, Jack Arnold, o número um.”

wonderyearsstill h 2015 0 0 - Crítica nostálgica da clássica série "Anos Incríveis" (1988-1993)

A vida passa muito rápido. Na correria diária para nos mantermos relevantes na roda viva, perseguindo melhores salários e o respeito de nossos pares, participando de rituais sociais tolos e sem sentido, facilmente esquecemos que o que realmente importa fala direto ao coração, não é conquistado com diplomas, não chama a atenção, trata-se daquela sensação agradável que temos ao olhar à noite para o reflexo no espelho, sem máscaras, sem culpa, sem medo, com a consciência de que não foi apenas mais um dia jogado fora. A criança que reside internamente seria incapaz de desperdiçar um momento de diversão entre amigos. Esta série me ensinou que tudo na vida é mágico, da luz do sol que invade o quarto pela fresta da janela, passando pelo sorriso que conseguimos arrancar de alguém que amamos, até o silêncio compartilhado em uma situação de dor, tudo é belo. Se conseguirmos nos manter íntegros, podemos chegar ao fim da jornada com orgulho, de cabeça erguida. Se conseguirmos nos manter agradáveis, doces, seremos queridos e lembrados com carinho. Viver plenamente é a única coisa que importa.

“A gente cresce em um instante, um dia estamos de fraldas, noutro dia vamos embora, mas as recordações da infância ficam conosco por muito tempo, lembro de um lugar, de uma cidade, de uma casa, como uma porção de casas, de um jardim, como uma porção de outros jardins, de uma rua, como uma porção de outras ruas. A verdade é que, depois de tanto tempo, ainda me recordo, foram anos incríveis.”

Cotação: 5 Stars - Crítica nostálgica da clássica série "Anos Incríveis" (1988-1993)

RECOMENDAMOS


Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here