Entrevista exclusiva com Kimberly Skyrme, diretora de elenco em Hollywood

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Nesta nova entrevista exclusiva para o “Devo Tudo ao Cinema”, converso com a simpática Kimberly Skyrme, veterana diretora de elenco de várias prestigiadas produções em Hollywood, como a série “House of Cards” e o clássico filme de James Cameron, “True Lies“, sobre os bastidores da indústria norte-americana.

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O – Kimberly, como um ator/roteirista/diretor independente, eu respeito profundamente o trabalho difícil de um diretor de elenco. É complicado ajudar o cineasta a trazer à vida sua visão, selecionando as pessoas certas para cada projeto. Como você começou na área? Apresente, por gentileza, o seu trabalho para meus leitores. 

K – Caruso, além de diretora de elenco, também sou produtora, roteirista, diretora, em suma, uma contadora de histórias. Já fiz parte de filmes e séries, vídeos governamentais e propagandas. Eu recentemente terminei as filmagens de “Ward 8”, um piloto para uma série em desenvolvimento. Algumas produções em que contribuí, “The Domesticators” (Co-Roteirista e Diretora), “Wayward Girls”, “Bennie’s Gym”, estrelada por Ed Asner, sete vezes ganhador do prêmio Emmy. Eu fui diretora de elenco nas primeiras três temporadas de “House of Cards”, “Unsolved Mysteries”, nos filmes “Impacto Profundo”, “Lembranças de Um Verão”, “Beloved”, “O Dossiê Pelicano”, “True Lies”, além de inúmeros curtas e longas independentes.

Faço parte da Casting Society of America, New York Women in Film & Television (NYWIFT), Women in Film & Video (WIFV-DC), além de Women in Film and Television International (WIFTI). Sou fundadora da Television, Internet and Video Association (TIVA-DC) e The Peer Awards. Também estou no comitê da NYWIFT’s Women’s Film Preservation, além de ser co-fundadora da Hollywood Women’s Film Institute.

Agora estou na pré-produção de “Christmas in New England”, a minha estreia como diretora em longas-metragens.

O – Como sua relação com os filmes, emocionalmente falando, começou? Quando criança, os filmes foram uma grande parte da sua vida? Seus pais te apresentaram esta arte desde cedo? E quais filmes, naquela época, fizeram você se apaixonar pelo cinema? 

K – Eu aprendi a amar essa pergunta! Durante anos, escutei como outros cineastas cresceram em sua carreira sabendo desde cedo que queriam este caminho. Eu sinto que o trabalho me escolheu ao invés de eu escolher o trabalho. Foi um ponto culminante, uma ação que me levou por uma rota tortuosa para uma carreira de quase 30 anos no cinema.

Eu nasci em uma “família cinematográfica”, não uma que vivia em sets de filmagem, mas, sim, que vivia em salas de cinema, TODO o tempo! Eu tenho lembranças doces de minha mãe me acordando no meio da noite (ela era e continua sendo uma corujinha) para ver “Três Dias do Condor” e “Forasteiros em Nova Iorque”, de Arthur Hiller. Isto numa época pré-streaming, antes mesmo das locadoras de vídeo! Digo isto para que todos entendam que se o filme desejado estava passando na televisão, você parava tudo o que estava fazendo, a coisa era séria, já que não havia como saber quando aquele filme passaria novamente. Ela acordava de madrugada para ver, puro amor por aquela arte. Eu nem preciso dizer que estes dois filmes são os meus favoritos, né?

Esta é uma parte realmente emotiva do meu amor pelo ato de contar histórias, um trabalho que resgata lembranças queridas, muita nostalgia. É um tipo de amor que nós compartilhamos inconscientemente. Junte a tudo isto o fato de que cresci em uma cidade pequena em que um dos finais de semana era reservado para uma ida familiar ao cinema (que custava muito pouco) de rua. Ele continua funcionando, pretendo fazer lá uma exibição (com direito a tapete vermelho e tudo) do meu filme.

O – Como diretora, comparando sua experiência em curtas e agora no longa, você sentiu alguma diferença relevante no processo (criativamente falando)? Você pretende continuar dirigindo?

K – Eu mal posso acreditar que demorei tanto para dirigir um longa. Eu considero este processo elétrico! O processo É a paixão para mim, a experiência no set de filmagem é maravilhosa, claro, mas as minúcias da pré-produção é quando eu amo estimular camadas e mais camadas de criatividade e trabalho cooperativo. Pensar em tudo é muito excitante também, imagino que concorde comigo. Eu sei que muitos podem achar a tarefa muito amedrontadora, mas as camadas narrativas que são potencializadas nas palavras faladas, quem as defende em cena, o que estão vestindo, onde estão sentados, cada pequeno detalhe que preenche este espaço cênico me inspira.

Ironicamente, os dois filmes são dramaticamente diferentes. É a minha história de amor que se sagra vitoriosa. Enquanto “Ward 8” é um drama sobre saúde mental, sobre os médicos que dedicam suas vidas, corpo e alma, para ajudar outrem, “Ruby” é 180 graus na direção oposta! É uma comédia romântica ambientada durante o Natal na Nova Inglaterra.

O ponto em comum aos meus olhos é a condição humana. Filmes são uma oportunidade para criar uma mudança social, educando enquanto entretém, e, mais mais importante, criando um “novo normal” que é algo lindo.

Resumindo, para mim o processo não é tão diferente, já que pesquiso o material e utilizo muito de minhas experiências pessoais para realçar a minha visão e, principalmente, a mensagem subliminar da história. Estas camadas são compartilhadas com o elenco e toda a equipe técnica, então, de todo ângulo, a trama é abraçada por todos.

Sobre dirigir novamente, mesmo que eu dissesse “não” rapidamente, sou uma contadora de histórias, logo, acabaria criando a “História do Não!” Eu anseio ter uma carreira longa dirigindo filmes, tenho muitas histórias para contar e sinto que é uma maneira incrível de se deixar um legado.

O – Quando suas entranhas gritam sobre um novo talento, que você sabe no fundo do seu coração que é a escolha perfeita para um papel, mas é alguém com pouca experiência (ou desconhecido). É difícil fazer aquela pessoa (a aposta) ser “financeiramente interessante” para os executivos dos estúdios?

K – A minha forma de lidar com isto… A minha intuição conduz minha criatividade. Às vezes não funciona, porque, você sabe, isto é um negócio. Os executivos de estúdios precisam e querem manter seus trabalhos, logo, dependem que os filmes façam uma boa bilheteria, então dificilmente apostam em um desconhecido para um papel importante na trama. Não há o que discutir, apesar de haver casos de sucesso que remam contra esta corrente, como a decisão de colocar Daisy Ridley (que era desconhecida) para protagonizar os novos da franquia “Star Wars”. Os executivos decidiram correr o risco neste caso porque o ineditismo (aos olhos do público) na trama funcionava, fazia sentido.

Personagens importantes na história podem aparecer brevemente no filme, mas serão um risco na bilheteria. “Manchester à Beira-Mar” é um ótimo exemplo. Michelle Williams raramente aparece na tela, mas é fundamental para a história. É assim que eu faço o meu filme atual, há dois papéis masculinos proeminentes e os homens ainda representam bilheteria certa na indústria. Eu escalei um ator menos conhecido como protagonista, que filma por 3 semanas, e outro nome mais conhecido para um papel importante, que filma por apenas 3 dias!

O resultado é um empate técnico no setor de marketing e publicidade, com o entendimento de que eu priorizei a escolha de talentos sólidos.

Eu aprendi que preciso confiar em meus instintos, de forma que atraia a confiança de produtores, diretores e executivos de estúdio. É fundamental ser intuitivo o suficiente para saber quais batalhas merecem ser iniciadas.

O – Como você faz para não perder a paixão pelo trabalho, após todos estes anos? Levando em consideração como é difícil ter que lidar com sentimentos machucados, egos destruídos, já que você é responsável por dizer: “Você é bom” ou “Desculpe, mas arrume outro emprego”.

K – Esta questão é realmente dupla. Felizmente, enquanto estava na casa dos 20 anos, fui sábia o suficiente para perguntar a Pieter Jan Brugge, o produtor de “Dossiê Pelicano”, o que ele fez para manter seu trabalho na indústria. E ele disse que eu precisaria reinventar meu “papel” na indústria ano após ano. Pouco tempo depois eu comecei a produzir o meu primeiro curta.

Em setembro próximo, completo 29 anos daquele primeiro dia em que trabalhei como diretora de elenco, estou certa de que amo ainda mais meu trabalho, mais do que naquele dia em que comecei. Para mim, o trabalho nunca fica cansativo. Eu me considero uma “garota interiorana que dá emprego às pessoas”. Como isso pode me cansar quando penso que tenho uma longa lista de atores e atrizes que terão sua primeira oportunidade profissional nas minhas mãos? É algo que me fascina.

Embora haja uma quantidade razoável de “rejeição” na indústria, algo que faz parte do jogo, lembro-lhes consistentemente que as audições não são apenas objetivando aquele trabalho, mas, sim, uma oportunidade para o artista mostrar seu talento, treinar e construir relacionamentos.

O – Você pode compartilhar conosco alguma história curiosa (ou engraçada) nos bastidores de alguma produção em que você trabalhou?

K – Já são 30 anos na indústria, a sua pergunta é complicada… Por onde começar?

Caminhar horas a fio pelas ruas de Washington para encontrar um cão de colo para uma cena de “Born Yesterday” ambientada no saguão do Willard Hotel, ou estar em um castelo inflável de parque com várias crianças em um curta independente, ou ter uma reunião com Alan Pakula e Jonathan Demme para selecionar as pessoas perfeitas para a história que desejamos contar.

Ah, não posso esquecer, também já tive que preencher a vaga em uma produção de última hora, quando um ator ficou indisponível.

O – A atual controvérsia é a batalha entre os grandes estúdios e a Netflix. Qual é a sua opinião sobre isso, tendo em conta a sua experiência e especialmente (algo que eu percebo em suas entrevistas em vídeo) sua apreciação pelo novo, a importância de se adaptar a evoluir. 

K – Você disse muito bem, Caruso, a mudança é sempre vital! Não é inteligente combater o novo. Eu sinto que a tecnologia moderna diminuiu os empecilhos para quem deseja entrar na área, mas, por outro lado, também fez todo mundo pensar que é fácil escrever um roteiro.

É um processo colaborativo e todos precisam compreender que o que importa é que o produto final seja comerciável.

O – Como você vê essa tendência atual de Hollywood em investir em super-heróis de quadrinhos? É um sinal de falta de ousadia criativa dos estúdios? 

K – É uma questão recorrente, claro que tenho uma visão particular sobre ela.

Cinema é, acima de tudo, um NEGÓCIO. Os produtores estão neste negócio de fazer filmes, nenhum entra sem ambição de ganhar dinheiro. Há muita pressão, você precisa entrar de cabeça com alguma estratégia, analisando que poupar “X” dólares hoje precisa simbolizar lucro lá na frente. Entende? O artista é emoção, ele trabalha no ramo das ideias, mas quem atua nos bastidores dos projetos precisa lucrar.

O – É como sempre digo, Kimberly, não há como se construir uma indústria de cinema com filmes umbilicais autorais. O blockbuster torna possível o indie, não o contrário. 

K – Sim. Se há um público sedento por adaptações de quadrinhos, capaz de pagar o ingresso várias vezes na mesma semana, só para ver seu herói nas telas, qualquer exibidor vai seguir sem medo esta tendência, vai abrir mais sessões por dia. É como pensam também os executivos dos estúdios.

E, como você bem salientou, para cada 10 propriedades da Marvel/DC que são levados para a tela grande, há dinheiro “em caixa” para que os executivos se arrisquem em projetos menores, independentes, como “Estrelas Além do Tempo”.

Pessoalmente não considero estas adaptações de quadrinhos um bom modelo de negócio, não são meus filmes favoritos, mas eu respeito o gênero e a segurança financeira que trazem aos estúdios, a diversão que proporcionam ao público. Eu certamente não os culpo pelas suas escolhas.

O – Qual projeto, dentre todos, você sente mais orgulho de ter participado (e a razão)?

K – Uau … Esta é sempre uma pergunta difícil para mim. Cada projeto me trouxe uma oportunidade única. Eu tive o prazer de trabalhar em filmes que me ensinaram tanto, que eu pude levar este conhecimento para minha carreira como produtora e, agora, diretora.

Eu seria negligente se não mencionasse o projeto interessante que fiz com o Departamento de Inteligência Nacional. A beleza de começar minha carreira na área em Washington me deu a oportunidade de trabalhar em um curta que estava sendo produzido para compartilhar com o presidente Obama, mostrando as novas maneiras que os analistas de inteligência estavam fazendo seus trabalhos, que incluíam ajudar os militares em tempo real.

Um projeto, “Twice Exceptional” (Duplamente excepcional), guardo com muito carinho em meu coração, um curta que focava em mostrar como educar crianças com necessidades especiais, jogando luz em como elas podem fortalecer o relacionamento dos pais. Eu sinto orgulho de minha direção de elenco nesta obra, pude selecionar um menino com síndrome de Down e uma menina autista.

Outro trabalho que adorei participar foi “Beloved”. A história era maravilhosa, eu adorei a cultura que foi criada pelo diretor Jonathan Demme, o fato de que pude trabalhar de perto com tantas crianças foi muito encantador.

Eu tenho orgulho de dizer que conheci e trabalhei com alguns dos diretores mais respeitados na área, espero incorporar um pouco de cada um deles em meu próprio estilo como diretora.

O – Kimberly, grato pelo carinho com o meu trabalho. Você pode deixar uma mensagem para meus leitores brasileiros, especialmente aqueles que estão pensando em começar nesta linda fábrica de sonhos?

K – Grata a você pelo convite, Caruso. Os sonhos são realizados através de AÇÕES. Há dois tipos de pessoas no ramo do entretenimento, os “faladores” e os “que metem a mão na massa”. Se você quer ser bem-sucedido, deixar um legado valioso que será lembrado, você precisa UNIR os dois, ser um FALADOR e um MÃO NA MASSA.

Seja pontual, gentil, educado, aprenda o máximo que puder (sinta prazer no acúmulo de conhecimento) e SEMPRE se ofereça para entregar mais do que é pedido. Quanto mais você faz, mais aprende… E quanto mais aprende, mais você SERÁ.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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