Entrevista exclusiva com Germana de Lamare, neta de LUIZ SEVERIANO RIBEIRO

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A querida amiga Germana de Lamare acompanha (e valoriza) meu trabalho desde meus primeiros anos como crítico profissional, tive o prazer de contar com sua presença em uma reunião simples de aniversário, anos atrás, mas, como disse a ela, estava aguardando um momento especial para entrevistá-la sobre o legado valioso de seu avô, Luiz Severiano Ribeiro, para esta arte que tanto amamos. Em 2020, completo 12 anos como profissional da crítica, e 5 anos como cineasta independente, tendo produzido 6 curtas que foram selecionados em festivais do Brasil e de Portugal, logo, está mais que na hora de prestar minha reverência pública. Analisando em retrospecto, todo cinéfilo brasileiro deve sua cinefilia aos esforços pioneiros de Luiz Severiano Ribeiro.

O primeiro contato dele com o cinematógrafo foi no Circo Pery, em Fortaleza, fascinado com o impacto das imagens em movimento naquelas pessoas de todas as faixas etárias e classes sociais. O cinema, em sua origem, foi criado para ser popular, amado, pensado como puro entretenimento, dos Nickelodeons gringos às lonas circenses brasileiras. Severiano Ribeiro, enxergando o tremendo potencial financeiro da novidade, entra para a História da arte no Brasil inaugurando o lendário Cine Riche, em 23 de dezembro de 1915, com o filme de aventura, “Jockey da Morte” (Il Jockey della Morte – 1915), do dinamarquês Alfred Lind.

A semente que ele plantou, regou e tanto cuidou lá atrás, com a ajuda de sua equipe e familiares, germinou lindamente, o Grupo Severiano Ribeiro é sinônimo de competência.

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A jovem Germana em seu local de trabalho.

O – Germana, como foi a experiência de ser neta desta lenda do cinema brasileiro, o maior exibidor, o “rei” Luiz Severiano Ribeiro?

G – Luiz Severiano Ribeiro teve cinco filhos, Luiz o único homem, mamãe que se chamava também Germana, Laís, Yolanda e Vera. Minha infância já teve a convivência com um avô adulto e orgulhoso de seus negócios. Um de seus programas comigo era me levar para ver o chafariz do cinema São Luiz, e a abertura colorida, as luzes mostrando a tela ao começar o filme. Eu achava que estava num mundo mágico.

Como minha avó tinha pressão alta e não podia subir a serra, meu avô no verão comprou uma casa no Alto da Boa Vista, onde nós passávamos todos os verões. Minha mãe e as filhas fazendo companhia à minha avó, já que meu pai, médico pediatra, não podia também abandonar a clínica. A minha convivência íntima com vovô foi nas minhas férias, nos verões de minha infância no Alto da Boa Vista, onde ele me fez amar a natureza, assim como a magia do cinema.

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Cinelândia

Ele deitava na rede depois do almoço, na varanda, e me contava histórias de Guaramiranga, onde nasceu, no Ceará, dizia que seu pai queria que ele fosse seminarista e depois médico, mas ele me dizia que tinha nascido para ser um homem de negócios. Audacioso, ele se endividou em empréstimos, mas construiu um império.

Não falava nunca de dinheiro, só que estava na época dos cajus e jabuticabas nascerem. O seu mundo de negócios ficava trancado no escritório, ele sabia se abstrair dos problemas, tirar uma sesta e conversar sobre política. Acho que esta capacidade de jamais deixar que a paixão pelos cinemas tirasse o apetite pela galinha ensopada, foi o que fez com que ele trabalhasse tantos anos.

Este avô simples e relaxado, no entanto, era uma fera no escritório e todos o temiam, até os credores. Ele era duro, frio e convincente. A sua persistência e sua audácia nunca o recuaram, mesmo nos maus momentos que passou. Meu tio ficava mais nervoso que ele, sempre. Tinha seu hábitos, era metódico, seu único luxo era ter um Cadillac, fora isso, adorava mesmo se reunir com a família nos almoços de domingo, na mesa que aumentava à medida em que os dezoito netos nasceram.

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O – Ele foi criticado à época na imprensa por ser competente demais, dominar a arte da negociação, sucesso sempre incomodou neste país, que prima pela insegurança, inveja. A historiografia cultural nacional deve aos esforços pioneiros dele não apenas um capítulo, sem ele não haveria o livro. Como você analisa em retrospecto esta relação?

G – O fato de meu avô ter se tornado o maior exibidor no Brasil foi uma travessia do Saara, que começou com sócios e rivais criando conflitos lá mesmo no Ceará e em Recife, perceberam como vovô estava crescendo com sua técnica de negociações. Havia também o problema que, em plena guerra, era difícil os filmes norte-americanos chegarem aos cinemas desta região. Mesmo assim, ele tornou-se um dos maiores exibidores e fez acordo com os rivais para exibirem e importarem os filmes para a região.

O seu emblema máximo foi a construção do cinema São Luiz, de Recife e Fortaleza, sendo que o deste último durou vinte anos, devido à guerra. Já no Rio de Janeiro, desentendeu-se com o maior sócio de fornecimento de filmes, a Metro, que resolveu derrubá-lo construindo como concorrente os Metros Copacabana, Tijuca e Passeio. Não conseguiu. Já no Rio, entrou em divergência com o poderoso empresário Serrador, que queria criar um polo de cinema só na Cinelândia. Vovô apostava nos cinemas de bairro, como o São Luiz, Rian, Roxy, América, Olinda e por aí vai. Somente em 1940, vovô compra o Odeon e entra definitivamente no centro. E, por mérito, torna-se o maior exibidor também no Rio.

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Luiz Severiano Ribeiro

O – Eu sempre leio que ele via o cinema apenas como um negócio, de forma quase desapaixonada, mas custo a acreditar nisto. Ninguém melhor que você para elucidar esta questão. Qual a relação dele com o cinema enquanto arte passional? 

G – Ele não gostava exatamente de filmes, ele gostava de cinema, e sua grande paixão era o São Luiz, do Rio. Parece contraditório, mas o tio Luiz amava mais ver filmes que o vovô. Este gostava de sinopses, elenco e o nome do diretor. Depois de ler estas informações, vovô definia: esse filme vai ser um fracasso, põe num cinema menor, ou, esse filme vai ser um sucesso, põe num maior. Nunca errou um! Já o tio Luiz, que entendia muito de filmes, preferia ver, às vezes, sete filmes por fim de semana, para programá-los com segurança. Ele nunca entendeu o faro preciso do pai, nem ele, nem ninguém. O vovô tinha a sua maneira original de amar o cinema.

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O – Você pode compartilhar histórias curiosas envolvendo a relação entre a família e os bastidores da indústria internacional?

G – Vovô era muito fechado, tio Luiz também, não compartilhavam com a família suas discussões financeiras com os norte-americanos, mas pelos presentes de Natal da Fox, Universal, Columbia, Disney, entre outras, que mandavam para ele no final no ano, parece que viviam no melhor dos mundos. Eles nunca deixaram se tornar públicas as várias discussões e desavenças, com exceção do caso da Metro, que construiu os cinemas numa clara concorrência. Quanto aos atores, foram inúmeras histórias, como visitas de Cesar Romero e Tyrone Power, que estão no livro da família. Dedicatórias carinhosas ao vovô, inúmeras, Clark Gable, Katharine Hepburn, Yvonne De Carlo, Judy Garland, Spencer Tracy, Hedy Lamarr, Susan Hayward, Gene Kelly, Joan Bennett, Ricardo Montalbán, Charles Laughton, entre muitos outros que conseguimos resgatar.

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Luiz Severiano Ribeiro conduzindo a mãe de Germana ao altar, na Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. (1936 – foto gentilmente cedida pela entrevistada)

O – Quais eram os hábitos culturais dele em casa?

G – Vovô foi um ávido leitor de jornais e escutava rádio até onze da noite. O que mais o interessava eram os relatos verídicos, por exemplo, ele acompanhou passo a passo, dia a dia, a Segunda Guerra Mundial, já que era um anti-Hitler fanático. No dia da chegada dos pracinhas na Cinelândia, ele deu uma festa no escritório do Odeon.

O – Qual o aspecto do incrível legado de seu avô que mais te emociona hoje?

G – O que mais me apaixona é ter tido um avô audacioso, honesto, bom empregador, amigo de poucos, mas muito fiel a eles. Um avô presente, ainda que discreto na hora de demonstrar afeto, mas que me presenteou com um mundo mágico, e, através dele, uma adolescência dourada. Ele era ótimo para seus empregados, tanto que deixou vários deles incluídos em seu testamento. Uma vez, tio Luiz deu uma bronca nele porque ele tinha pagado já três vezes o enterro do pai de um de seus gerentes. Este era o vovô.

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Programas do cinema São Luiz.

O – Querida Germana, deixe uma mensagem final para meus leitores, apaixonados por cinema que, ainda que sem saber, prestam reverência ao seu avô cada vez que entram na sala escura.

G – Caruso, você mexeu fundo com minhas recordações mais queridas. Obrigada muitíssimo a você por prestigiar a família, através da história de um homem que nasceu no interior do Ceará e se tornou, como diz Toninho Vaz (autor de sua biografia), o Rei do Cinema.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

4 COMENTÁRIOS

  1. Excelente entrevista .
    As saudades apertaram do meu avô grande homem e um avô amigo presente e muito especial
    É meu querido pai que continuou a caminhada começada pelo pai com muito sucesso.
    Tive a sorte de conviver intimamente com dois grandes homens e duas figuras humanas maravilhosas
    Sonia Severiano Ribeiro

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