Kung-Fu Fighting (Bônus) – Bruce Lee, Mestre de Si Mesmo

Um jovem que nunca envelhecerá e que tornou sua imagem um
símbolo de seus ideais em vida. Uma morte física que apenas afirmou sua real
imortalidade. Um gênio em sua arte, disciplinado, justo, veloz como o raio e, ao
mesmo tempo, frágil e humilde. O nome pelo qual o mundo o conheceu: Bruce Lee.
“Ninguém pode fazê-lo sentir-se inferior sem o seu consentimento”.
Muitos procuram debater sobre quem era melhor lutador. Todos
têm seus méritos e deméritos, mas vejo a perfeição em apenas um.
Enquanto Jet Li possui ótimas lutas muito bem coreografadas, sinto uma tremenda
falta de empatia com o público. Como ator ele não me convence, sempre sisudo.
Diferente de Jackie Chan, que consegue atuar muito bem, mesmo nas mais
incríveis peripécias acrobáticas. Extremamente simpático, talvez até demais, falta a ele o ar de superioridade que outros possuem. Sonny Chiba é muito
técnico, mas falta carisma. Jean-Claude Van Damme tem carisma de sobra,
mas pouca técnica. Steven Seagal não possui muito carisma, nem sabe expressar
bem para a câmera sua técnica, talvez por isso esteja utilizando-a tão pouco em
seus últimos trabalhos.
“Covarde não é aquele que evita um combate, covarde é aquele
que mesmo sabendo que é superior, luta e fere o mais fraco”.
Bruce Lee não era apenas um lutador, mas também um filósofo.
Sendo um ótimo ator, conseguia traduzir em seu rosto, nos movimentos corporais
e em seus famosos gritos, toda a emoção da luta. Além de atuar, roteirizava e
dirigia. Infelizmente não teve tempo de trabalhar mais esses dois elementos,
mas deixou incompleto o que poderia ter se tornado o filme símbolo do gênero. Não aquele horrendo arremedo chamado: “Jogo da Morte”, que os
gananciosos produtores americanos inventaram de fazer após a sua morte,
utilizando cenas gravadas e truques baratos e ofensivos para tentar ocultar o
dublê que estava presente a maior parte do tempo. Falo da ideia original de Lee, onde
ele viveria um campeão de artes marciais aposentado, que entrava em confronto com
gangues coreanas do submundo. Ele descobre a existência de uma torre, onde as armas
de fogo não são permitidas. Guardada em cada nível por um representante de
algum estilo de luta. Sua missão é chegar ao topo dela e resgatar seus
irmãos que são mantidos reféns.
“Se você acreditar que uma coisa é impossível, você a
tornará impossível”.
A intenção de Lee era clara, abominar o uso de armas de fogo
e demonstrar fraquezas inerentes a cada um dos estilos de artes marciais,
superando-os com sua técnica, uma mistura de todas as artes, de maneira fluida.
Isso ia de encontro a todos os princípios ditados pelos mestres. Ele sempre
foi uma pedra no sapato desses dignitários, que o acusavam de ensinar os
segredos milenares para qualquer um, de qualquer raça ou credo. Ele os
respondia dizendo que as religiões e as variadas artes marciais deveriam servir
para unir os povos, não segregá-los. Ateu assumido, Lee acreditava apenas no
seu aprimoramento físico e intelectual.
“Conhecimento dá poder, mas só o caráter granjeia respeito”.
Em seus filmes podemos assistir ele destruindo toda uma
classe de alunos faixa-preta com extrema habilidade. Mas o momento que melhor
expressa sua real intenção está presente na batalha final de “O Voo do Dragão”
(The Way of the Dragon – 1973), quando após uma longa e exaustiva luta com seu
adversário, vivido por Chuck Norris, Lee se ajoelha perante o corpo tombado
dele e ora em respeitoso silêncio. Era seu roteiro e sua direção. Diferente de
todos os outros astros do gênero, que sempre acabam com o vilão com soar de
trombetas ao final e, se possível, jogando-os no moedor de carne mais próximo,
Lee demonstrou respeito e admiração por seu oponente. Sua força não residia nos
punhos, mas sim em seu caráter.
“Seja como a água que abre caminho através das pedras: não
se oponha ao obstáculo; contorne-o”.
Até hoje se discute os mistérios que circundam sua morte,
alguns afirmam que ele foi assassinado pela Yakuza, teoria que tomou mais força
após a lamentável morte acidental de seu filho Brandon Lee nas gravações do
filme “O Corvo”, quando foi atingido por uma bala que deveria ter sido de
festim. Que tinha muita gente invejosa querendo sua morte, não tenho dúvida. Seu desejo de propagar as artes marciais para todos, sem preconceitos, ia de
encontro a muitos poderes influentes na área, isso sem falar no seu
posicionamento público a favor do desarmamento, o que para a indústria militar era algo que certamente lhes tirava o sono, devido ao forte apelo
popular do astro. Mas, acima de tudo isso, eu prefiro lembrar-me de como ele
viveu.

“Aquele que não sabe, e pensa que sabe. Ele é tolo. Evite-o!
Aquele que sabe e não sabe que sabe. Ele está adormecido. Desperte-o!
Aquele que sabe e não admite o que sabe. Ele é humilde. Guie-o!
Aquele que sabe e sabe que sabe. Ele é sábio. Siga-o!”

Faces do Medo – “Desafio do Além”


Desafio do Além (The Haunting – 1963)
Quando o diretor Martin Scorsese elegeu recentemente seus
filmes favoritos no gênero terror, não me surpreendi com o primeiro colocado: “Desafio
do Além”. O homem por trás da ótima adaptação do livro de Dennis Lehane: “Ilha
do Medo” (Shutter Island), havia reverenciado o clássico dirigido por Robert
Wise, buscando farta inspiração para conduzir a sua obra. Não apenas na
narrativa similar, como também no elemento imagético, por exemplo, com o uso pleno
em simbolismo da escada em espiral.
O roteiro, adaptado do livro “The Haunting of Hill House”, de Shirley Jackson, pode ser interpretado simploriamente como um conto de
casa mal-assombrada, mas possui um forte subtexto (pelo menos em sua versão
cinematográfica) psicológico, que possibilita uma interpretação muito mais
instigante e satisfatória. Assim como o personagem de Leonardo DiCaprio no
suspense de Scorsese, a trágica Eleanor (Julie Harris) parece estar vivendo uma
ilusão induzida, como parte de uma experiência de tratamento para sua neurose,
nascida de um fenômeno estranho que testemunhou quando criança. Convidada pelo
parapsicólogo Dr. Markway (Richard Johnson), para unir-se a dois outros jovens
(uma também afetada por fatores inexplicáveis), em uma visita a uma casa com
fama de mal-assombrada, como parte de uma pesquisa que ele está conduzindo
sobre o mundo paranormal. Ele acredita que a presença dessas jovens irá incitar
os “espíritos” a se manifestarem.
Os ângulos de câmera (Wise foi o mestre responsável pela edição
de “Cidadão Kane”) que captam várias partes da casa, transformando-a em um
personagem vivo, uma entidade que observa seus ocupantes e os pressiona cada
vez mais. Pode-se dizer que algumas das manifestações físicas que ocorrem são representações das distorções internas de Eleanor, cada vez menos no
controle de suas emoções. Wise gradativamente incorpora os momentos de paranoia
às cenas onde os “espíritos” são explícitos, tornando difícil diferenciar o que
é real e o que pode ser realmente paranormal.

Estátuas parecem mudar de posição no escuro, como se a
arquitetura da casa tivesse vida própria (auxiliado pela utilização distorcida das
lentes olho de peixe) e visse seus visitantes como ratos em um labirinto. É
comum escutar de jovens, quando indicamos o filme, que ele não dá medo. A mente
do jovem está tão acostumada ao assalto visual dos filmes de terror modernos,
que simplesmente não aceita a estimulação sonora. O real elemento paranormal no
filme é mostrado excessivamente através do som. As vozes estranhas nas noites e
as batidas nas portas e paredes, gradativamente aumentando de intensidade. Mas ficamos
com a impressão de que o verdadeiro monstro não é a casa ou os “espíritos” que
possivelmente a habitam, mas a própria Eleanor, cada vez mais perdida no
labirinto de sua mente. 

Sábio Silêncio – Parte 9


Diário
13 de Janeiro – 1920 – Tarde
Aproveitei que Chaplin estava próximo e visivelmente
descontraído, para abordá-lo com mais informalidade. Eu queria registrar uma
entrevista com aquele gênio, mas não sabia se conseguiria manter a atenção dele
por mais que alguns minutos, então eu tive que ser bastante objetivo. Chamei
sua atenção e, para minha surpresa, ele já me conduziu pelo braço para dentro
da casa. Ele era tímido, mas extremamente atencioso, quando percebia que estava
falando com alguém minimamente interessado em seu trabalho, não em se
aproveitar de sua fama para outros interesses. Notei que ele tinha paranoia com
relação a oportunistas (principalmente do sexo feminino), algo que ele deixou
transparecer em algumas das conversas que presenciei ao longo daquele dia. Passamos
pela elegante escadaria curva de corrimão negro e sentamos num belo sofá ao
lado de uma aconchegante lareira, descansando os pés no confortável apoiador.
Apoiando a cabeça no braço direito, que se estendia pela parte de cima do sofá,
sentado sobre a perna esquerda cruzada, Chaplin parecia uma criança, o que
contrastava com a roupa formal que estava vestindo. Sem ele perceber, liguei o
gravador e comecei a conversa:
– Você imaginou que chegaria tão longe, Charlie? – ele sorria
e já meneava uma negativa com a cabeça, antes mesmo de eu terminar a sentença.
– Eu estou até agora esperando a herança da minha tia-avó,
sonhando com a riqueza e a glória que ela pretensamente irá me trazer. –
percebendo que não captei a piada, ele continuou em tom mais sério. – Quando o
empresário de Fred Karno me mostrou um telegrama dos donos da New York Motion
Picture Company, eu me enganei achando que eram alguns advogados me procurando
por conta da minha tia-avó Elizabeth Wiggins, que achei que tivesse morrido e
me deixado uma boa herança. Aquilo iria me salvar naquele momento. Na verdade,
acabou me salvando, pois eles estavam me chamando para trabalhar para a
Keystone, substituindo Ford Sterling. Sennett já havia falado comigo quando eu
me apresentava nos teatros, mas nunca iria imaginar que um dia acabaria trabalhando pra ele. Em uma semana estava passando fome, na outra estava
recebendo 150 dólares. Incrível, não?
– Mas você se imaginava fazendo sucesso nos filmes, ou visualizava
apenas os palcos?
– Eu tinha certeza que a exposição nos filmes iria ajudar
minha carreira nos palcos. Tentei durante um período, antes de ser contratado
pela Keystone, comprar os direitos de todos os esquetes de Karno, para filmá-los.
Eu não via potencial nenhum na Keystone, pelo material que eu assistia. Era uma
comédia muito simplista, repetitiva, gravada com rapidez, sem o polimento que
eu considerava essencial. No entanto, eles eram ótimos na publicidade dos seus
produtos. Algo que acabei me tornando. Talvez, com alguns meses lá, poderia
voltar para o Vaudeville como um nome conhecido mundialmente. Essa era minha
ambição quando assinei o contrato. Hoje existem pessoas que trabalham imitando
o que faço, como Billy West.
– E você não se irrita com ele ganhar dinheiro copiando você?
– Ele imita o “vagabundo”, não Chaplin. Se ele me imitasse,
ficaria muito irritado. O “vagabundo” não é meu, mas do mundo. Por mais que eu
me esforce muito para que ele se apaixone por mim (risos), ele é do povo. E o
West faz um ótimo trabalho, ou fazia, pois acho que ele está buscando agora
novos caminhos em seus projetos. E, além do mais, ganhar dinheiro com Arte é
sempre válido. Eu nunca impediria isso. Eu mesmo iniciei fortemente
influenciado pelo francês Max Linder, de quem tive a honra de ser colega durante
minha passagem pelos Estúdios Essanay, uns três anos atrás.
Senti que sua atenção começava a se desviar para a conversa
que Fairbanks estava conduzindo do lado de fora da casa, então disparei a
última pergunta:
– Como você teve a ideia pro “vagabundo”?
Ele se ajeitou no sofá. Dava pra ver a responsabilidade que
ele sentia por esse personagem. Aquela criança havia se transformado
subitamente em um empresário:
– Foi bem no início, em um dos filmes que fiz com Mabel
Normand. Eu comecei mal no meu primeiro trabalho pra Keystone. Pensei que não
teria outra chance, até que ela me indicou para esse filme dela. Eu entrei na
última hora e fiz o que o diretor mandou. Sennett me disse para colocar alguma
maquiagem e fazer o melhor que eu pudesse. Eu tinha odiado minha caracterização
no anterior, então eu busquei equilibrar contradições (risos), com sapatos
enormes contrastando com um chapéu pequeno. Calças largas demais, contrastando
com um colete bem apertado. O bigode iria me fazer parecer um pouco mais velho,
mas não caricato demais. Quando me olhei no espelho vestido como o “vagabundo”,
foi como se eu já conhecesse aquela pessoa, foi realmente mágico. A recepção
nas gravações foi tão calorosa, que Sennett acabou me colocando pra aparecer em
quase todas as cenas. Na semana seguinte, filmamos “Corrida de Automóveis para
Meninos” e o resto você já sabe (risos). Peço sua licença para me reencontrar
com a luz do sol, antes que ele se despeça de nós.

E ele se levantou com mesura, deixando sentado no sofá um
jovem muito sortudo. Se aquela noite fosse 10% como aquela breve conversa,
seria fantástico…

Continua…

“O Tempo Redescoberto”, de Marcel Proust

“Lá onde a vida levanta muros, a inteligência abre uma saída”.
Marcel Proust (1871-1922) chegou a afirmar que nunca havia
assistido a um filme, aquela curiosa invenção muda que dominava as feiras e os
pequenos Nickelodeon da época, dizendo ainda que não acreditava que aquela
ferramenta conseguiria captar a vida com a mesma profundidade que a literatura.
É interessante perceber, no entanto, como sua recorrente abordagem sobre o
impacto da passagem de tempo nas relações afetivas e na personalidade de seus
protagonistas é profundamente cinematográfica em sua essência. A dificuldade de
transportar em imagens as contemplações dedicadas do autor foi um grande
empecilho na indústria, fazendo com que as tentativas de Luchino Visconti e Joseph
Losey (com roteiro de Harold Pinter) fossem interrompidas.
Adaptar os sete volumes (quase 4000 páginas) do maravilhoso “Em
Busca do Tempo Perdido”, onde Proust trabalha o tema do sentido da vida pelo
filtro das memórias, seria algo extremamente complicado. Os fatores que fazem
um indivíduo ser algo único, através da criação de sua identidade. O respirar
de um novo ar, que sendo uma constante reminiscência de sua experiência de vida,
mantém-se irremediavelmente puro. São reflexões filosóficas que surpreendem
pelo bom humor. Pérolas como: “deixem as mulheres bonitas para os homens sem
imaginação”. O autor não é reconhecido por isso, talvez porque muitos que o
celebram objetivando algum tipo de status intelectual, nunca leram com atenção os
sete volumes. Ele segue estimulando-nos a desconfiar daquela realidade proposta
nas páginas, assimilando a identidade dos personagens pelo filtro de suas
variações, atravessando o fogo cruzado entre o tempo e a memória, vista como
instrumento de aprendizado para a inteligência. O autor vê o homem como um ser
em constante evolução, indiferente às explicações nascidas das ideologias
religiosas e dos estudos científicos. O mais bonito na experiência dessa longa leitura
é constatar que após o término, ficamos com vontade de reiniciar apenas para usufruir
da retrospectiva com o acréscimo de nossas próprias memórias, um passo a frente
do autor. E posso constatar que vale cada segundo investido.
O corajoso e intensamente criativo diretor chileno Raoul
Ruiz (falecido em 2011) selecionou logo o último volume, o mais lúdico, para
transportar em seu “O Tempo Redescoberto” (Le Temps Retrouvé, d’après l’oeuvre
de Marcel Proust – 1999), conseguindo captar com sensibilidade a fusão entre o
narrador Marcel (como ele divertidamente cita no livro, esse seria seu nome
caso fosse o autor) e o romancista experiente Proust. Nos primeiros minutos,
que acompanham o autor (vivido por Marcello Mazzarella) em seu leito de morte,
podemos perceber que estamos diante da tela de um artesão, experimentando
truques visuais, com móveis que se deslocam em cena, transpondo a sensação de
que fazemos parte do resgate emotivo do personagem, que deseja profundamente
terminar sua obra, mas que também se questiona sobre a validade de tão hercúleo
esforço, já que todos aqueles que ele ama e a sociedade em que vive, irão
perecer. Seu livro irá acabar acumulando poeira em alguma estante, muitos anos
após sua morte. Ele inicia buscando conscientemente inspiração na memória
resgatada pelas fotografias, mas terminará descobrindo que o segredo reside no
poder daquelas lembranças involuntárias. A forma como o diretor utiliza esse
conceito no filme (com clara inspiração em “Ano Passado em Marienbad”, de Alain
Resnais), não ajuda a torná-lo fácil, até mesmo para aqueles que leram as
obras. Mas o esforço de acompanhar a trama é muito válido, sobretudo pelo
brilhantismo estético e pelas invenções narrativas, como portas que se abrem
para revelar o “eu” criança do personagem. Ainda mais se consideramos que ele
foi lançado em um dos períodos mais fracos em criatividade no cinema mundial.
O filme eleva sua qualidade ao depender da reação do
espectador descobrindo os elementos que o fascinaram na leitura. A Arte
justifica a existência humana, ou como Proust afirma no livro:

“… Um minuto livre da ordem do tempo recriou em nós, para senti-lo,
o homem livre da ordem do tempo. E pode-se entender que este homem deve ter a
confiança em sua alegria, mesmo que o simples sabor de uma Madeleine (bolinho
cujo sabor evoca o passado no autor) não parece lógico para conter dentro dele
as razões para esta alegria, pode-se entender que a palavra “morte”
não deve ter nenhum significado para ele, situado fora do tempo, por que ele
deveria temer o futuro?…”.

Sétima Arte em Cenas – “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”


Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of The
Third Kind – 1977)
A ufologia é uma prova tangível da ilimitada criatividade do
homem, que busca incessantemente seu criador ou criadores. A fascinação pelo
desconhecido fez com que nossos ancestrais tomassem o sol e a lua como deuses,
testemunhas solitárias e distantes da lenta evolução humana.  Hoje, as
únicas certezas que temos são de que não estamos sozinhos em um universo que se
expande, e que provavelmente haja milhões de formas de vida em planetas que
ainda desconhecemos. Mas assim como nossos ancestrais fantasiavam acerca do sol
e da lua, ainda hoje fantasiamos sobre possíveis alienígenas que nos visitam,
de boa ou má índole, porém envoltos em um mistério nunca elucidado.
Quando Spielberg era criança, seu pai o tirou da cama para
fazê-lo testemunhar uma chuva de meteoros que iluminava o céu noturno. Aquela
experiência contaminou os sonhos e a imaginação do jovem e com certeza se
reflete em seu trabalho como cineasta. A sua clara intenção ao empunhar uma
câmera é levar aos espectadores aquela mesma sensação de deslumbramento que ele
sentiu naquela noite ao lado do pai. Com esse filme, seu objetivo fica bastante claro, pois aborda um assunto que sempre o fascinou.
Seu alterego Roy Neary, vivido pelo amigo Richard Dreyfuss, é um
simples operário que trabalha fazendo reparos em redes elétricas numa pequena
cidade interiorana. Após presenciar estranhas luzes no céu, fica obcecado em
descobrir a verdade por trás daqueles estranhos fenômenos. Spielberg chamou
para participar do projeto, um de seus grandes ídolos: François Truffaut. O
cineasta francês vive o cientista Claude Lacombe, que investiga os casos que
estão acontecendo por todo o globo, levando-o a crer que os alienígenas
pretendem se mostrar aos olhos do mundo de forma definitiva e elucidativa.

A sequência final, que culmina na cena da aparição da majestosa nave-mãe na Torre do Diabo, eu considero os 30 minutos mais poéticos no gênero. Impossível esquecer os momentos finais, quando o diretor
demonstra seu talento ao imaginar que o encontro entre diferentes mundos seja
possível através de notas musicais, numa sinfonia de luzes e cores. A trilha sonora é brilhante, numa linda contribuição do compositor John Williams, que inteligentemente insere trechos da clássica canção “When You Wish Upon a Star”. Sem dúvida, continua sendo o filme mais fascinante a abordar o controverso assunto. Beleza e lirismo trabalhados com a
competência de um artesão apaixonado.

Cine Bueller – “Indiana Jones e o Templo da Perdição”


Indiana Jones e o Templo da Perdição (Indiana Jones and The
Temple of Doom – 1984)
Steven Spielberg odeia este filme, considera-o um erro. São
exatamente os elementos que ele cita como falhas neste projeto, que fizeram eu
me tornar um fã do personagem. A trama sombria que nos faz crer que o perigo é
latente, o alívio cômico perfeito na forma do jovem asiático “Short
Round” e um interesse romântico curioso na forma de Willie Scott (Kate
Capshaw), uma artista medrosa que sempre acaba envolvendo o grupo nas piores
confusões.
Enquanto que no anterior “Os Caçadores da Arca Perdida” (Raider´s of The Lost Ark), o
personagem de Harrison Ford era um professor heroico, nesta segunda incursão
ele se torna um mito. Spielberg e seu amigo George Lucas são fãs de Joseph
Campbell e sua visão sobre o poder dos mitos na sociedade. Quando Indiana Jones
aparece em cena com seu chapéu e chicote preso à cintura, nossa criança
interior berra de pura empolgação. Quando o filme passava na “Sessão da Tarde”, tinha a certeza de que estava compartilhando aquela experiência com todos os colegas da minha turma na escola.
A trama aborda um culto religioso hindu que escraviza
crianças e sacrifica homens, retirando seus corações com as mãos antes de
jogá-los ao fogo. Sombrio em excesso? Não mais que alguns contos infantis que
escutamos no colo de nossas mães enquanto ainda bebês. Assisti pela primeira
vez aos cinco anos e lembro que gostei tanto, que a imagem na velha fita VHS
chegou a amarelar. Tenho as falas decoradas até hoje. Não me tornei um adulto
violento por ter sido exposto ao filme por tantas horas seguidas, mas tive meus
padrões de qualidade no gênero elevados.

Spielberg consegue incutir neste filme um ritmo acelerado,
onde as pausas são tão ou mais interessantes que as cenas de ação. Acredito que
o maior acerto da obra foi a escolha do tema. Alguns críticos reclamam que
grande parte do filme é dedicada a mostrar as atividades nefastas do culto
hindu, o que se afasta demais do conceito exibido nos outros projetos. Eu vejo
de forma diferente: quanto maior o conhecimento que temos sobre o vilão, melhor
nos sentiremos quando o herói o vencer. Quando enfim escutamos a fanfarra icônica
do personagem (mérito do compositor John Williams) após um longo tempo,
vibramos muito mais. Cada soco desferido por ele no vilão carrega nosso braço
junto, nos levando até o tradicional final feliz, que nos satisfaz por
completo. Mesmo que tenhamos assistido a pessoas comendo cérebros de macaco,
corações sendo arrancados e pulsando nas mãos do algoz, o que fica na memória é
a genialidade do diretor em reunir tantas referências de forma tão fantástica e
divertida.

Woody Allen (Bônus) – Sonhos de Um Sedutor

Eu estava voltando pra casa ontem, quando passei em frente
ao monumento de Aguinaldo Tambor, maior herói indígena de Cascatinha e
redondezas. Sentado aos pés da estátua, um jovem vestia um jeans de acordo com
as tendências da moda, uma camiseta estilosa e um relógio maior que seu pulso.
Ao notar minha presença, ele começou a puxar papo, contando suas aventuras na
cidade grande. Em sua tribo ele era conhecido como Tabaré, mas ai de quem o
chamasse por esse nome. Ele era o que poderíamos chamar de um “índio politicamente
incorreto”, já que fazia todo esforço possível para vencer na vida como um
cantor de sertanejo universitário. Ele tinha em seu flat, escondido dentro do
armário, vários cocares e flechas, que utilizava em manifestações populares, sempre
que sentia que poderia finalmente se beneficiar de suas origens. Ele era um
praticante de Cosplay dedicado, tendo tido o trabalho de decorar expressões de
seu povo, mesmo sem saber exatamente o significado das palavras. Como saberia? Ainda
criança, após a quarta fuga da oca de seus pais, impulsivamente se jogou dentro
da mala de um homem branco que havia sido encontrado deitado inconsciente nas
areias da praia. O pobre mercador passou semanas boiando numa tora de madeira,
castigando-se internamente por ter aceitado satisfazer o desejo noturno de sua
esposa grávida. Ele nunca imaginou que seria tão difícil encontrar bolinhos de
chuva. Tabaré chegou à cidade grande e foi criado pelo mercador e pela esposa,
que diariamente repreendia o marido por ter utilizado os bolinhos como desculpa
para tentar fugir novamente dela. Dois homens em fuga, unidos pela mão trêmula
do destino.
***
Com a palavra, o crítico de cinema sergipano (de gosto extremamente duvidoso) Pierre Dominique:
“Essa história é tão linda, que se eu pudesse me transformar
alquimisticamente numa poltrona de uma sala de cinema, eu nunca ia deixar um
cabra amarrotar meu estofado”. 
Cotação: (3 Xenas)
***
Tabaré passou por momentos difíceis, como todos que se
aventuram sem preparo algum em terras estranhas. Quando foi visto caído bêbado na
sarjeta, passou a ser chamado de “Tabaré, o Etílico”. O que o deixava mais
irritado era não saber o que significava a palavra. Nas noites frias de inverno,
o povo costumava escutar sua voz rouca entoando a clássica canção “New York,
New York”, enquanto testemunhas afirmam que ele era visto constantemente
azucrinando os policiais, questionando duramente sobre a ausência dos bonecos
de neve nas ruas. O prefeito não colocava sequer o asfalto, pobre Tabaré, que agora
me encarava sentado aos pés da estátua.
***
Com a palavra novamente, o crítico de cinema sergipano (de gosto extremamente duvidoso) Pierre
Dominique:
“Olhe, seu menino, tava bom demais pra ser verdade esse
cabrunco bexiguento. Que final mais paia. É de lascar o cano”. 
Cotação: (Meia Gabrielle)
***
Final severamente modificado após requerimento da
Associação PECA (“Procure Esconder com Ajustes”)

Tabaré abraçou carinhosamente a estátua de seu antepassado,
com o orgulho de um filho que vê seu pai moldado em bronze, numa pose esquisita
e anatomicamente incorreta, servindo de tela para craqueiros praticarem suas pichações.
Ele se despediu de mim, ostentando o cocar em sua cabeça, rumando em direção ao
aeroporto. Estava com saudades de casa.
A biografia autorizada de Tabaré está sendo vendida nas
melhores livrarias. Viva você também a “Indiomania” que tomou de assalto o
país.
Sonhos de Um Sedutor (Play It Again, Sam – 1972)
Allan (Woody Allen), um crítico de cinema que consome filmes
ansiosamente e idolatra “Casablanca”, é abandonado por Nancy (Susan Anspach),
sua mulher, que quer o divórcio já que não aguenta mais a insegurança emocional
dele. Incapaz de lidar com este momento conturbado da sua vida, o sonhador
busca consolo nos filmes que ama, enquanto imagina Humphrey Bogart (Jerry Lacy)
lhe dando conselhos de como deve lidar com as mulheres. 
Entre o humor tresloucado e episódico de “Bananas” e “Tudo o
Que você Sempre Quis Saber Sobre Sexo…”, Woody Allen filmou sob a direção de
Herbert Ross (de “Adeus, Mr. Chips”), uma adaptação do seu texto para uma peça
(encenada pela primeira vez em 1969), que acabou marcando o primeiro encontro
nas telas entre Allen e sua primeira musa Diane Keaton. Interessado apenas em
dirigir roteiros inéditos, Allen acreditava que Ross poderia transformar sua
ideia já trabalhada na Broadway em um projeto de maior apelo comercial, conquistando
um público maior do que em seus próprios filmes. Diferente do pastelão que ele
vinha realizando, o roteiro se preocupa em desenvolver as motivações narrativas
dos personagens, com uma aura sentimental que encontraria ressonância apenas
cinco anos depois, com “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”. Um bom exemplo está na
repetição de um tema, mas com objetivo contrário. No caso, o clássico momento
em que Allen é intimidado por valentões. A cena não é trabalhada visando fazer
graça da situação, mas sim acentuar a humilhação sentida pelo protagonista
perante sua acompanhante.
A ideia de um cinéfilo receber conselhos de um personagem de
cinema é fantástica, mas poderia desandar caso a atuação de Lacy (Bogart) fosse
um tom acima. Mesmo sendo essencialmente caricaturais, suas breves aparições trazem
equilíbrio e sinceridade aos gestos histriônicos do protagonista. Allan respira
cinema do segundo em que acorda até a hora em que vai dormir. Sempre que uma
crise se insinua em sua vida, recebe a visita de seu ídolo Bogart, com
conselhos objetivos de como ele deve agir nas mais variadas situações. Ele
encontra na Arte a inspiração que precisa para superar suas limitações. O tema
fala diretamente ao coração de Woody (isso transparece em cada cena), que ainda
insere homenagens sutis a outros gênios da indústria de sonhos que ele admira,
como François Truffaut.

O filme está sendo finalmente lançado em DVD, pela
distribuidora “Classicline”, em parceria com a “2001 Vídeo”. 

Quando Astaire encontrou Salvador Dali

O filme acaba de ser lançado pela distribuidora “Classicline”,
em mais um trabalho primoroso de resgate da História da Sétima Arte.

Yolanda e o Ladrão (Yolanda and The Thief – 1945)
Uma linda e encantadora fantasia sobre o vigarista Johnny
Riggs (Fred Astaire), que em visita a um país latino-americano mítico, convence
uma herdeira ingênua (Lucille Bremer) de que ele é seu anjo da guarda. Mas ele
nunca imaginou que seus sentimentos por ela pudessem mudar tão rapidamente.
Essa bela fábula de Vincente Minnelli é afinada no diapasão lúdico
de “O Diabo Disse Não” (Heaven Can Wait), realizado dois anos antes por Ernst
Lubitsch. Mas diferente da obra do diretor alemão, que não sobreviveu bem ao
teste do tempo, esse musical se apresenta surpreendentemente moderno em seus
diálogos irônicos, provavelmente ignorados pelo público da época, que não
imaginava Fred Astaire como um trambiqueiro. Recebido de forma fria pela
crítica, conquistaria décadas depois o status de Cult. O roteiro de Irving
Brecher, com duas comédias dos “Irmãos Marx” no currículo (o que explica a
superioridade de sua escrita cômica), apresenta situações muito à frente de seu
tempo, ousadias (algo a ser aplaudido, considerando a fórmula dos musicais da
MGM) que poderiam passar facilmente como material para esquetes realizados hoje
em dia. Um bom exemplo ocorre na cena da banheira, com a personagem vivida pela
bela ruiva Lucille Bremer induzindo sua tia (Mildred Natwick, cuja última
participação em sua longeva carreira foi no excelente “Ligações Perigosas”) a
pensar que ela estaria desesperada para encontrar um homem, quando na realidade
ela queria tocar pela primeira vez em um telefone. A cena é conduzida com
sutileza e ótimo timing.
Outro ponto que se destaca é a fotografia de Charles Rosher
(responsável pela obra-prima do cinema mudo: “Aurora”, de Murnau), que aliada
ao design de sets realizado por Edwin B. Willis (entre outras colaborações,
trabalhou em “O Mágico de OZ”) e Cedric Gibbons, utiliza como inspiração os
trabalhos surrealistas de Salvador Dali. O resultado é muito interessante, com a
inocência da jovem encontrando ressonância imagética no mundo em que ela
habita. As músicas de Harry Warren e Arthur Freed (“Angel”, “Coffee Time”, “Will
You Marry Me?”, “This is a Day for Love” e “Yolanda”) não representam o melhor
trabalho da dupla, mas emolduram com elegância o roteiro. E como não citar o
maravilhoso, pioneiro (ainda que tenha sido utilizado em menor escala em produções
anteriores) e onírico balé de quinze minutos, coreografado por Astaire e Eugene
Loring, elemento que é injustamente pouco citado, normalmente substituído nas listas
de críticos pela longa sequência de balé no superestimado “Sinfonia de Paris”
(feito seis anos depois) ou pelo ótimo “Os Sapatinhos Vermelhos” (de 1948).

É uma pena que o fracasso do filme em seu lançamento tenha
desencorajado Astaire de continuar arriscando. Ousadias como essa, caso houvessem sido incentivadas, poderiam ter dado uma sobrevida ao gênero dos musicais nos anos
seguintes, exatamente no período em que a fórmula deles começava a demonstrar
sinais de cansaço.

Guilty Pleasures – “Mestres do Universo”


Mestres do Universo (Masters of The Universe – 1987)
Mais uma picaretagem da dupla de produtores Menahem Golam e
Yoram Globus, desta vez mirando o imaginário coletivo infantil. Não bastou eles
terem destruído um mito mundial em “Superman 4 – Em Busca da Paz”, desta vez
atacaram o “He-Man”, que já estava em decadência como linha de brinquedos na
época da produção. Eu era criança na época em que o filme apareceu, lembro que
meu pai trouxe da locadora e eu fiquei todo empolgado para ver. O filme
simplesmente não tinha nada a ver com o desenho animado, já que o roteiro
utilizou levianamente a versão anterior do herói nos quadrinhos que vinham
encartados com os bonecos da Mattel. O roteirista David Odell tinha no seu currículo
pérolas como “Supergirl” (1984) e alguns episódios dos “Muppets”, o que nos
leva a pensar quais foram os critérios para sua seleção nesse projeto que
carregava nos ombros a responsabilidade de salvar a linha de brinquedos.
O personagem principal (vivido pelo Dolph Lundgren) não era
o príncipe Adam, era apenas o cara que havia matado o Apollo Creed e
arrebentado com o Rocky Balboa, só que mais falante e com mullets. Não tinha “Gato
Guerreiro”. Isso era muito frustrante para uma criança, como você pode imaginar.
E o pior de tudo era o vilão, que ao final retornava triunfante e afirmava: “Eu
voltarei”. Até hoje nada. Pura propaganda enganosa. Mas agora vem a informação
mais importante: Eu comprei o DVD de “Mestres do Universo”. Como eu fiz isso? A
grande realidade é que aprendi a gostar deste filho bastardo e me surpreendo
assistindo nas madrugadas insones. Mesmo que seja só pra ver a Courteney Cox
(de “Friends”) pagando mico em início de carreira.
Para os padrões medíocres da produtora, até que esse filme
não era tão ruim. Comparado ao “American Ninja 5” (de 1993), canto desafinado
do cisne “Cannon Group”, o projeto comandado por Gary Goddard (primeiro e único
como diretor… Imagine o trauma da experiência) é surpreendentemente
interessante. O talentoso Frank Langella, interpretando “Esqueleto”, consegue impor
uma presença marcante e ser mais carismático que o próprio protagonista, cujas
falas tiveram que ser regravadas repetidas vezes na pós-produção, já que
ninguém entendia o que o inexperiente (não ter vocação também é um fator) Dolph
Lundgren murmurava. Já a bela Meg Foster levou muito a sério (talvez até
demais) sua caracterização como “Maligna”, aquela boneca que eu achava que
tinha vindo com defeito por ter a pele amarela, inspirando-se em Lady Macbeth.
Shakespeare se sentiu ofendido, tenho certeza. E o que dizer do Gorpo, que foi
substituído por um parente do anão Willow (aquele da Terra da Magia)? Mas o
maior problema é o desfecho, onde após todo um suspense razoavelmente
interessante, culminando no clássico bordão do herói e o choque das lâminas,
termina sendo encaminhado para uma disputa visivelmente mal coreografada. A
questão era que os produtores avisaram o diretor, no dia da filmagem da grande
batalha, que havia acabado a verba e que era pra ele finalizar tudo o mais rápido
possível. A equipe técnica, que já estava com pagamentos atrasados, teve que
ser incentivada pelo bravo diretor a elaborar uma forma de filmar o combate de
forma rápida e barata. Os esforços resultaram em um absurdo blecaute e uma
disputa tão empolgante quanto um filme do Terrence Malick.

Mas analisando com carinho, existem pontos positivos. A
trilha sonora de Bill Conti é muito boa, a trama é simpática (ainda que seja um
plágio dos quadrinhos dos “Novos Deuses”, de Jack Kirby) e o trabalho de
dublagem nacional feito pela “BKS” é excelente. Garcia Júnior é um grande ator,
coisa que Lundgren nunca foi. O sempre competente Isaac Bardavid como “Esqueleto”,
além de Cecília Lemes (Courteney Cox), Eleu Salvador (Billy Barty) e Helena
Samara (Christina Pickles), entre outros talentos dessa Arte.